
Mudanças Climáticas
Adaptação climática urbana com e para as comunidades
Adaptação urbana de base comunitária em Moçambique
A Associação FACE actua na intersecção entre saneamento urbano e adaptação climática, num contexto em que as cidades moçambicanas enfrentam pressões crescentes: inundações sazonais, degradação de infraestruturas de drenagem e comunidades periurbanas com capacidade limitada de resposta. A nossa abordagem parte de uma premissa central — as comunidades afectadas pelas alterações climáticas não são apenas vítimas passivas, são portadoras de conhecimento prático e de capacidade de acção que nenhuma solução técnica imposta de fora substitui. É com base neste princípio que desenvolvemos intervenções em múltiplas frentes: produção de conhecimento local, envolvimento da juventude universitária e reforço de infraestruturas urbanas de resiliência.
Conhecimento local como recurso de adaptação
Em 2023, a FACE coordenou o projecto “Os Desafios de Viver com Inundações”, financiado pela Cruz Vermelha da Holanda em parceria com a Bakker Consultor. Durante três meses, equipas de campo trabalharam em cinco bairros da Beira — Munhava Matope, Munhava Maraza, Munhava Mananga, Chota e Manga Mascarenhas — documentando as estratégias que as próprias famílias desenvolveram ao longo de anos para gerir a convivência com as inundações. O resultado foi o manual “Moçambique, Beira. Comunidade Resiliente: Um Guião para Viver com Inundações”, estruturado em cinco capítulos, concebido para ser acessível a todos os níveis de escolaridade e orientado para soluções replicáveis noutros contextos urbanos vulneráveis.
Em Maio de 2024, o manual foi apresentado e debatido numa Roda de Conversa com 60 participantes de alto nível institucional, reunindo representantes do Governo Provincial de Sofala, do Município da Beira, do INGD, da UN-Habitat, do UNDP, da AVSI, da AMOR, da VNG, do Blue Deal, do SASB e da Universidade Licungo. O encontro confirmou a relevância do conhecimento comunitário como insumo legítimo para políticas públicas de adaptação climática — e posicionou a FACE como interlocutora entre as comunidades e as instituições que definem as respostas à crise climática na cidade da Beira.
Protagonismo juvenil e inovação
Em 2025, a FACE implementou o projecto “Rodas de Conversa e Ação Juvenil”, no âmbito do programa IGUAL financiado pela Embaixada dos Países Baixos. O projecto realizou sete rodas de conversa em seis instituições de ensino superior da Beira — UCM, UniZambeze, UniLicungo, ISCTAC, UniISCED e UniPiaget — envolvendo 641 estudantes em debates sobre adaptação climática urbana e resiliência comunitária.
O projecto produziu resultados concretos e inovadores. Os estudantes desenvolveram a JoanaBot, um chatbot de alertas meteorológicos concebido para disseminar informação climática de forma acessível às comunidades, apresentado durante três dias na Conferência da Biodiversidade e em várias universidades da cidade. Foram também construídos dois Caminhos Seguros com pneus reutilizados em zonas de inundação frequente, oferecendo passagens pedonais funcionais em períodos críticos, e instalado um mural de sensibilização no bairro do Vaz. Estas realizações demonstram que a resposta à crise climática pode ser liderada pela geração mais jovem e produzida com os recursos disponíveis nas próprias comunidades.
Infraestrutura urbana e resposta a emergências
A adaptação climática exige também resposta operacional. A FACE mantém intervenções continuadas de limpeza e desobstrução de valas de drenagem urbana na Beira, em parceria com o SASB e no âmbito do projecto “Living with Floods”, contribuindo para reduzir o risco de inundação em bairros periurbanos.
Em contexto de emergência, a FACE demonstrou capacidade de resposta rápida durante as cheias que afectaram Xai-Xai em Janeiro de 2026. Em parceria com o Conselho Municipal de Xai-Xai, as equipas mantiveram operações de salubridade nos centros de acolhimento da população deslocada, integraram-se nas estruturas municipais de gestão da emergência e conduziram campanhas de limpeza urbana em larga escala durante e após a fase crítica das inundações. Esta capacidade de transição entre operação corrente e resposta de emergência é parte constitutiva da abordagem da FACE à resiliência climática urbana.
A presença da FACE em nove municípios de cinco províncias — Beira, Xai-Xai, Chókwè, Inhambane, Maxixe, Chimoio, Manica, Gondola e Buzi — traduz-se numa capacidade de resposta climática com alcance nacional, sempre ancorada nas realidades e nas pessoas de cada território.
