Rodas de Conversa e Ação Juvenil

Entre Março e Outubro de 2025, 641 jovens universitários da Beira sentaram-se em círculo para falar sobre as inundações que marcam a cidade — e saíram com soluções nas mãos.

Ficha do Projecto

Nome do projectoRodas de Conversa e Ação Juvenil
ProgramaIGUAL — Iniciativas Juvenis
FinanciamentoEmbaixada do Reino dos Países Baixos
CoordenaçãoCESC — Centro de Aprendizagem e Capacitação da Sociedade Civil
ImplementaçãoAssociação FACE
LocalizaçãoCidade da Beira, Província de Sofala
PeríodoMarço – Outubro de 2025 (8 meses)
Parceiros institucionaisINAM, ARA-Centro, UCM, UniZambeze, UniLicungo, ISCTAC, UniISCED, UniPiaget

O Contexto

A Beira é considerada uma das cidades costeiras africanas mais vulneráveis às alterações climáticas. Localizada na foz dos rios Pungwe e Buzi e exposta a ciclones tropicais, a cidade de cerca de 530.000 habitantes vive em permanente tensão com a água. O Ciclone Idai, que fez landfall a 14 de Março de 2019, afectou mais de 1,85 milhões de pessoas em Moçambique e destruiu ou danificou mais de 198.000 habitações — com mais de 600 vidas perdidas (OCHA, 2019). Moçambique é um dos países mais expostos do mundo a eventos climáticos extremos: o Índice Global de Risco Climático 2021 (Germanwatch) classifica-o no 5.º lugar dos países mais afectados por desastres climáticos na última década.

Nas comunidades periurbanas, a vulnerabilidade é mais aguda: drenagem insuficiente transforma caminhos de terra em armadilhas durante a época das chuvas, isolando famílias e cortando o acesso a serviços. Os jovens — maioria da população e mais expostos ao futuro da crise climática — estavam largamente ausentes dos espaços de decisão sobre adaptação. Não faltava vontade; faltavam mecanismos e espaços de diálogo que transformassem essa vontade em acção.

A Jornada: Das Universidades à Comunidade

Fase 1 — Escutar: Rodas de Conversa nas Universidades

Rodas de conversa nas universidades da Beira

O projecto começou por criar espaços de diálogo onde não existiam. Sete rodas de conversa foram realizadas em seis instituições de ensino superior da Beira — UCM, UniZambeze, UniLicungo, ISCTAC, UniISCED e UniPiaget — reunindo estudantes e membros de organizações da sociedade civil. O formato circular e a facilitação por moderadores especializados garantiram que todas as vozes fossem ouvidas. Todas as sessões foram documentadas em vídeo.

Os debates não ficaram no abstracto. Os participantes foram convidados a identificar problemas concretos dos seus bairros e a propor soluções que pudessem ser implementadas com recursos locais. Duas ideias ganharam força transversal: a necessidade de informação climática acessível para as comunidades mais vulneráveis e a construção de caminhos transitáveis durante as inundações.

Fase 2 — Seleccionar e Aprofundar: O Seletivo de Jovens

Das rodas de conversa emergiu um grupo de jovens com perfil de liderança e compromisso com a acção. Este seletivo participou em duas rodas técnicas aprofundadas, onde as ideias gerais foram transformadas em planos executáveis. Os jovens trabalharam directamente com técnicos da FACE e com organizações comunitárias de base para definir o que era viável, onde intervir e como medir resultados.

Em paralelo, a FACE realizou um treinamento em Desenho de Projectos e Mobilização de Fundos, aberto a líderes de associações juvenis de Sofala. O objectivo: que a capacidade de transformar ideias em projectos não ficasse limitada a este projecto, mas se espalhasse pelo tecido associativo local.

Fase 3 — Agir: JoanaBot e Caminhos Seguros

JoanaBot — chatbot de informação climática via WhatsApp
Poster da JoanaBot
JoanaBot em acção — previsão do tempo via WhatsApp

A primeira ideia materializou-se na JoanaBot — um chatbot acessível via WhatsApp que entrega previsões meteorológicas e alertas climáticos em linguagem simples às comunidades da Beira. Co-criada com jovens e organizações comunitárias, a JoanaBot foi desenvolvida e apresentada na Conferência de Biodiversidade e em quatro universidades, e continua activa.

A segunda ideia ganhou forma no Bairro do Vaz: dois Caminhos Seguros construídos com pneus reutilizados que permitem a circulação durante as inundações, e um mural de sensibilização ambiental. No total, cinco acções comunitárias foram concentradas no mesmo local — transformando um bairro vulnerável num exemplo de adaptação liderada pela comunidade.

Resultados em Números

IndicadorResultado
Beneficiários directosMais de 560 jovens e utilizadores do chatbot
Participantes nas rodas de conversa641 estudantes universitários
Rodas de conversa realizadas7 (em 6 universidades)
Rodas técnicas com seletivo de jovens2 sessões
Chatbot co-criado e lançadoJoanaBot — activa via WhatsApp
Caminhos seguros construídos2 (Bairro do Vaz)
Mural de sensibilização ambiental1 (Bairro do Vaz)
Treinamento em mobilização de recursos1 (líderes de OSC de Sofala)
Aparições na imprensa8 ao longo do projecto
Taxa de execução das actividades100% (43 de 43 planificadas)
Divulgação em eventosConferência de Biodiversidade, Feira de Ideias, 50 Anos Cooperação Moçambique-Países Baixos

O Que Fica

O projecto encerrou em Outubro de 2025, mas deixou três legados distintos.

Ferramentas que continuam: a JoanaBot permanece activa e representa uma ferramenta com potencial de replicação noutros municípios. Os Caminhos Seguros são infraestrutura física que serve a comunidade independentemente de financiamento futuro.

Capacidades instaladas: o acompanhamento técnico do CESC-IGUAL fortaleceu a FACE em gestão financeira, procurement e monitoria — competências que permanecem na organização. O treinamento em fundraising espalhou esta capacidade por outras organizações da sociedade civil.

Uma demonstração: quando se criam espaços estruturados de diálogo entre academia e comunidade, e quando se investem recursos para transformar ideias em acções, os jovens respondem com protagonismo e resultados tangíveis.

Embaixada do Reino dos Países Baixos
CESC
Associação FACE