A capacidade de uma cidade resistir às inundações não depende apenas da quantidade de chuva que cai — depende da qualidade da infraestrutura que drena essa água. Na Cidade da Beira, uma das cidades moçambicanas mais expostas a eventos climáticos extremos, essa infraestrutura chama-se vala terciária: uma rede densa, capilar e maioritariamente invisível que atravessa bairros, quintais e margens de estrada — a infraestrutura de drenagem mais capilar da cidade, e ao mesmo tempo a que mais impacto tem na vida quotidiana da comunidade.
Entre 2024 e 2025, a Associação FACE concluiu o levantamento sistemático desta rede — 1.008 valas terciárias mapeadas, equivalentes a 232,754 km de infraestrutura de drenagem, distribuídas por 23 bairros, classificadas e entregues ao Serviço Autónomo de Saneamento da Beira (SASB) como base geoespacial para a gestão municipal.
Levantamento de Campo: Uma Metodologia Participativa
O levantamento foi conduzido por equipas técnicas da FACE com recurso a ferramentas de recolha de dados geoespaciais em campo. Para cada troço de vala foram registadas coordenadas, extensão, largura, profundidade e estado de conservação, segundo uma classificação de cinco categorias: funcional, não funcional, obstruída, assoreada e extinta.
Os dados foram posteriormente processados em QGIS para produção de cartografia técnica por posto administrativo. O levantamento decorreu ao longo de seis meses e enfrentou condições de campo exigentes: bairros com valas em zonas de difícil acesso, vegetação densa, inundações activas durante a época chuvosa e, em alguns casos, presença de animais perigosos. A equipa adaptou os procedimentos de campo em função das condições encontradas, sem comprometer a cobertura territorial definida.
Os bairros de Inhamizua (241,17 km) e Matadouro (224,04 km) exigiram o maior esforço de levantamento, reflectindo a extensão territorial e a complexidade da rede de drenagem nessas zonas. No total, foram produzidos sete mapas temáticos cobrindo todos os postos administrativos da cidade.

Quando a Memória Local É Dados Técnicos
Um dos elementos mais inovadores deste levantamento foi a integração do conhecimento comunitário como ferramenta técnica. A FACE mobilizou moradores de referência em cada bairro — designados internamente como “Guardiões da Memória” — para identificar valas extintas, troços obstruídos e ligações históricas da rede que não eram detectáveis por equipamentos de campo nem visíveis no terreno.
Esta abordagem revelou-se determinante: foram identificadas 33 valas extintas com um total de 4,73 km, suprimidas ao longo dos anos por obras de construção de estradas, edificações particulares, erosão progressiva e ausência de manutenção. Sem o contributo dos residentes locais, estes troços teriam ficado fora do registo técnico, criando lacunas na cartografia que comprometeriam a utilidade operacional dos mapas.
A extinção de valas por ocupação particular é um problema recorrente: muitos proprietários utilizam o espaço das valas para construir muros, vedações ou estruturas de apoio, eliminando capacidade de drenagem sem intervenção formal do município. O levantamento documenta estes casos com georeferenciação, fornecendo ao SASB e ao município evidência técnica para acções de ordenamento do território.

O que o Levantamento Revelou
O levantamento produziu uma base de dados geoespacial com 1.008 valas terciárias com 232,754 km de extensão total, distribuídas por 23 bairros da Cidade da Beira, com excepção dos bairros piloto de Nhaconjo, Muave e Manga Mascarenha, e dos bairros do Posto Administrativo de Nhangau, não abrangidos pelo contrato. A base cobre os Postos Administrativos de Chiveve, Munhava, Esturro, Manga Loforte e Nhangau parcial.


Entregue ao Município, Integrado na Gestão
Em Setembro de 2025, a Associação FACE procedeu à entrega formal dos resultados ao SASB, incluindo a base de dados geoespacial completa, os sete mapas temáticos em formato editável e um relatório técnico detalhado. A entrega foi acompanhada de uma sessão de trabalho com os técnicos do SASB para garantir a integração imediata dos dados nos processos operacionais do serviço.
Os dados foram estruturados para servir como instrumento operacional para a gestão do ciclo anual de manutenção das valas.
“Agora temos os mapas para controlar as rotinas de operação e manutenção das valas em todas as épocas chuvosas. Os mapas ajudam a ter noção dos locais críticos que precisam de assistência anualmente.”
SASB — Serviço Autónomo de Saneamento da Beira
Esta capacidade de planeamento preventivo representa uma mudança qualitativa na gestão da drenagem urbana na Cidade da Beira. Em vez de correr atrás de reparos depois da chuva cair, o município passa a dispor de cartografia que permite planear a manutenção da rede antes da época chuvosa — identificar antecipadamente os troços críticos, priorizar intervenções e alocar recursos com base em evidência geoespacial. Para uma cidade com o perfil de risco da Beira — exposta a ciclones, inundações costeiras e chuvas intensas sazonais — esta capacidade tem valor directo na redução de perdas humanas e materiais.

Uma Base para a Resiliência Urbana
A drenagem terciária é frequentemente o elo mais fraco das cidades africanas em crescimento acelerado: é a infraestrutura mais capilar, mais sujeita a pressão de ocupação informal e, simultaneamente, a que tem maior impacto directo na vida quotidiana das populações de baixo rendimento. Estudos recentes sublinham que o investimento em infraestrutura urbana de drenagem é uma das intervenções com maior retorno em termos de adaptação climática em cidades costeiras e de baixa altitude — exactamente o perfil da Beira.
O levantamento das valas terciárias da Beira responde directamente a esta lacuna. Ao produzir cartografia técnica detalhada com classificação do estado de conservação, a FACE fornece ao SASB e ao município um instrumento que vai além do inventário: é uma base para decisões de investimento, para a priorização de obras de reabilitação e para o acompanhamento da evolução da rede ao longo do tempo. A documentação georeferenciada das valas extintas e obstruídas cria igualmente um registo técnico que pode suportar acções de ordenamento do território e de regularização fundiária nos bairros.

Um Modelo para Outras Cidades Moçambicanas
A metodologia desenvolvida pela Associação FACE — combinando levantamento geoespacial de campo, cartografia em SIG e mobilização do conhecimento comunitário — foi concebida para funcionar em contextos de recursos limitados e é directamente replicável noutras cidades moçambicanas. Este trabalho contribui para os objectivos do Quadro de Sendai para a Redução do Risco de Catástrofes 2015–2030 e para o ODS 11 — Cidades e Comunidades Sustentáveis — ao criar infraestrutura de informação que permite gestão preventiva em vez de resposta reactiva.
Municípios como Quelimane, Nacala ou Maxixe, igualmente expostos a riscos de inundação e com redes de drenagem terciária por caracterizar, podem beneficiar directamente desta abordagem. A Associação FACE está disponível para partilhar a metodologia e apoiar a sua adaptação a outros contextos urbanos.
O Que Acontece a Seguir
Com a base geoespacial entregue ao SASB, os próximos passos incluem a integração dos dados no plano de manutenção anual da cidade, a priorização dos troços críticos identificados para reabilitação, e o acompanhamento da evolução do estado das valas nas próximas épocas chuvosas. A Associação FACE continuará a apoiar o SASB na interpretação e uso operacional da cartografia produzida.
Acompanhe o trabalho da FACE na Beira e noutras cidades moçambicanas através do nosso site e redes sociais. Municípios, parceiros e doadores interessados em programas similares podem contactar-nos directamente: geral@associacaoface.org.mz
Este levantamento foi realizado no âmbito de um contrato entre a Associação FACE e a VNG International B.V., com financiamento da Embaixada do Reino dos Países Baixos, no período de Setembro de 2024 a Setembro de 2025, com a participação activa das comunidades dos 23 bairros abrangidos.


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